Vozes de Mestres


Eram sete horas da manhã quando ele foi visto diante de uma fila extensa. Era o primeiro dos incontáveis que se posicionavam “indianamente” frente ao portão. Touca branca na cabeça, pele clara, alto, esguio, aparentando seus poucos anos de juventude – teria, no máximo, 21 anos. Ao ser interrogado sobre a hora em que ali chegou, respondeu prontamente: “Cheguei às oito e meia.” – da noite anterior... Imediatamente após responder, outros, dezenas de outros que se postavam logo atrás partiram para os questionamentos já esperados: número de vagas.
Não era necessário ser filósofo, sociólogo, psicanalista, psicólogo, pensador ou poeta para desvendar o segredo que os levou até ali, desde a noite anterior. O segredo evidente tratou de torná-los solidários na espera, embora rivais nas disputas pelas vagas. Evidente, estavam cansados fisicamente, no entanto, deixavam à mostra o brilho dos sonhos que faiscavam de cada um dos seus olhares. Ah! O segredo, bem à mostra tinha nomes dos mais variados. Para uns era sax, já para outros era trompete, ou violão, baixo, guitarra, percussão, técnica vocal, coral, desenho, balé, dança contemporânea, violoncelo, violino, clarineta, viola, oboé, fagote, flauta, cavaquinho... dezenas de nomes, um só segredo: Arte! Arte que não se traduz em ”ocupação para não ficar à toa”; Arte que impulsiona o Ser, que equilibra emoções, que estimula o pensar criativo; Arte, sinônimo de sublime, imponderável, enlevo; Arte que não se explica... Era esse o segredo que uniu a tantos, tornando a fila de muitos em UM só desejo: aprender a manifestar o que já possuem – Arte.
Certamente, ao se posicionarem em fila, desconheciam a movimentação de outros, profissionais da mesma arte, até então “invisíveis” para eles. Reuniões, diálogos, idéias a serem desenvolvidas, organização, preparação, trabalho, trabalho, trabalho... Todos envolvidos em outra esfera de ação: presidência, gerência, coordenação, professores, administradores, auxiliares, profissionais de limpeza.
Portão de entrada aberto, organizadores se desdobram... Foi dada a largada para mais um período de atividade do Centro Cultural da Fundação CSN, em Volta Redonda. Inscrições intermináveis durante quatro dias, filas pela espera de desistência, que não cessam. Impossível não prever que muitos não conseguirão realizar seus sonhos. A instituição não conseguiria... é anseio de boa parte – não seria maioria? – dos habitantes de uma cidade.
Aulas gratuitas, professores dedicados, bem remunerados, estrutura bem montada, salas de aula organizadas, material didático disponível, banheiros impecavelmente limpos, perfumados, água fresca, copos à disposição, ambiente de arte harmonioso. Tudo isso pode bem parecer uma fantasia ou propaganda certamente enganosa, do tipo “informe publicitário”. Somos, é verdade, levados a pensar assim diante de todo o estado de coisas destinados à população como mais um “serviço 0800” oferecido. A despeito do que possam imaginar ou “pré-conceituar”, as Oficinas Culturais existem, o espaço existe, os profissionais envolvidos também existem. A qualquer hora do dia isso pode ser constatado.
Por que raios não existem centros culturais em todos os lugares? Por que raios as administrações não se conscientizam do poder de alavanca que está contido na Arte? Por que “responsáveis” por gente, chegados ao dito “poder” por “méritos de inteligência e capacidade” não compreendem que somos Seres por excelência e que carregamos em nossas essências a Arte, pronta para vir à tona? Por que não compreendem que quando ela cumpre seu “destino” todos os demais setores de atuação da humanidade crescem, amadurecem, prosperam e dão o que chamam de “resultado”?
Quando será que deixarão de lado tantos conceitos mofados e trocarão o verbo “investir” por “promover”, ou “propiciar”? Que a resposta não seja a conhecida frase “falta de vontade política” ladeada pelo ranço das expressões que não significam nada.
O jovem de vinte e poucos anos conseguiu a vaga. Ele e mais centenas de outros. Os demais? Certamente aguardam o nascimento de outras instituições verdadeiras, que não tenham apenas fachadas à espera de um bom fotógrafo e alguns jornalistas, ou... à essa altura devem estar se prometendo que no próximo ano chegarão mais cedo ao portão do Centro Cultural da Fundação CSN.

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