
Texto e Fotos Pedro Thiago
“Duro que nem rocha, o cidadão é genioso e genial”. Estas são as definições de Celso Soares (Dj Corisco) sobre o homem que conduz a peito de aço o Maracatu Estrela Brilhante e dá nome ao documentário “Mestre Walter Ferreira de França”, lançado em novembro no bar Café com Letras, na capital mineira, pelo próprio Corisco.
Segundo Celso, a idéia primeira era fazer um registro que abordasse o Maracatu Estrela Brilhante, mas a complexidade sócio/cultural que envolve esta nação e os poucos recursos que Corisco detinha, não permitiam uma abordagem profunda e detalhada sobre o Estrela. “Um “doc” do Estrela Brilhante requer recursos e uma pesquisa muito forte, aquele baque é algo extremamente valoroso, não dá pra tratá-lo superficialmente”, revelou o DJ.
Visto a amplitude dos elementos que cercam o Estrela Brilhante, Celso partiu para a identificação de indivíduos que propulsionam e são referências no maracatu e na comunidade, como Mestre Walter.
Walter é, por muitas vezes, apontado como disciplinador e ignorante, mas Celso afirma que por trás dessa postura dura existe uma história, que muitas pessoas desconhecem. “Recife cara, pobreza, gueto e sobrevivência, já são elementos para formar uma pessoa dura”, afirmou o DJ.
Em 2007, ao realizar as filmagens com o Mestre, Celso foi conhecendo os elementos que constituem o homem. “Foi assim que ele aprendeu com os mestres dele, desse jeito firme, com foco, cultura popular é isso”, expôs Celso.
Walter nasceu no samba, seu pai, Zacarias, foi um dos fundadores do Gigante do Samba, “com dois anos ele já tocava caixa, depois seguiu para o Leão Coroado, uma das nações de maracatu mais antigas de Recife, de 1964 a meados dos anos 70”. Celso acrescenta ainda, que a rigidez de Walter tem a ver com o fato de ele ter servido a Marinha Brasileira.
A entrada de Walter para o Estrela Brilhante se deu quando Marivalda Maria dos Santos, em 1995 assumiu a presidência do maracatu e o convidou para comandar o baque. Hoje Mestre Walter compõe grande parte das toadas tocadas pelo Estrela, que também estão no CD lançado em 2002 pelo Estrela Brilhante, o primeiro CD de maracatu do país.
Mas a contribuição de Walter não se restringe às composições. Excelente instrumentista ele é quem coordena a bateria do Estrela Brilhante com uma exigência implacável, aplica os conhecimentos que lhe foram passados por seus mestres com um vigor que impressiona. A influência do samba também é visível na bateria do Estrela, com viradas plásticas que se assemelham muito às baterias de escolas de samba. Estes elementos diferenciam o baque do Estrela dos outros maracatus de Recife, não que seja melhor, mas é no mínimo singular.
Celso afirma que a rigidez de Walter também serve para medir até onde as pessoas estão dispostas a ir pelo Estrela, “se o cara afrouxar na primeira “encoxada” que Walter der, não serve para o Estrela”.
Mestre Walter ficou muito animado ao ver o documentário. “Ele adorou e me passou muito material, inclusive uma foto marcante, onde ele aparece tocando bem novinho no Leão Coroado”, disse Corisco.
Corisco contou com o apoio de Gabriel Bicalho para editar o filme, com fotos do acervo de amigos como Fernanda Araújo, Dani Ramos e Sandra Auharek, além de imagens do arquivo da Prefeitura do Recife
“Eu o enxerguei como ser humano, sensível e não só a rocha que ele mostra ser, entendi o porque dele ser assim, as pessoas acham que ser humilde é ser bobo, porém ele sabe se valorizar, é vaidoso.”
Celso, Celsinho, Corisco
http://api.ning.com/files/XDy3sxSn59C3GU0eaXJqRKngmswkkk6-Lq4ztrK5Fps_/DSC07185.JPG' />
“Vamos falar sobre a Jamaica?” Irreverente e articulado Celsinho é um cara que condiz a fluidez de nosso tempo. Gosta de trabalhar no que ele definiu como “network”, interação entre produções independentes, com atores culturais não só de Minas, mas do mundo. “Se você não se identifica, fica sozinho”, definiu.
“Tem a onda do Dub, onde vou levo meu som, seja como DJ ou aplicando oficinas e workshops de percussão. O mais legal de tudo isso são as relações firmadas, ai você vai tocar na terra dos amigos e eles também vem pra cá, foi assim com o Buguinha (Nação Zumbi), já toquei com ele em Recife e ele também esteve aqui este ano”, completou Celso.
Sua atenção se voltou para o maracatu quando despontou em todo país o Chico Science & Nação Zumbi, “mas outros artistas como Dominguinhos e Alceu já cantavam o maracatu”. Revelou.
A relação de fato começou quando Éder Rocha (ex-Mestre Ambrósio) realizou uma oficina em Belo Horizonte, depois disso entrou para o grupo Trovão das Minas e em 2001 foi à primeira vez à Recife, lá viu de perto o que é uma nação de maracatu e como ela envolve a comunidade ao seu redor.
Sobre o Trovão das Minas, grupo de Maracatu do qual Celsinho faz parte em Belo Horizonte, ele afirma que ta começando um trabalho novo, “agora estamos tentando firmar novamente o Trovão, muita gente saiu, mas tem um pessoal novo com muita disposição, interessado. Hoje o Trovão não tem um mestre, mas tem pessoas de ponta, com vivência e são referências, como a Milagros e a Dani Ramos”, explicou.
Estrela

O Maracatu Estrela Brilhante do Recife, fundado em 1910, por “Seu Cosmo”, tem sede no Alto José do Pinho, bairro periférico da capital pernambucana. De acordo com dados da Prefeitura do Recife, a comunidade do Alto conta com cerca de 12 mil habitantes em região de 4150 mil hectares. Cerca de 3 m2 para cada habitante. Ao lado de Brasília Teimosa é o bairro com maior densidade populacional da cidade de Recife.
Assim, amontoada em pequenos barracões cortados por esgoto a céu aberto vive a comunidade do Alto José do Pinho. Uma população muito carente de recursos e estrutura, com um alto índice de gravidez precoce e cercado por bairros violentos. O Estrela Brilhante se tornou uma referência para as pessoas da comunidade e até uma possibilidade de vida. O próprio Mestre Walter participa de oficinas e workshops na Europa e no Brasil. Muitos garotos conseguem se destacar na música e sobreviverem pelo o que aprenderam no Estrela, desde a confecção de instrumentos a atividades musicais.
A dimensão do Estrela na vida destas pessoas pode ser observada, por exemplo, quando o baque se reúne em seu Terreiro de Candomblé, para a saudação aos Orixás antes de partirem para avenida e disputar o carnaval. Uma grande comoção toma conta do terreiro, o próprio Walter, homem duro, vai às lágrimas, é o momento de um ano inteiro de ensaios e preparação.
Além do papel social, o Estrela tem a face espiritual, religiosa. As bonecas chamadas “calungas”, que saem no desfile carregadas por membros da corte (sim há uma corte no desfile), representam duas Orixás (Oxum/Iansã) e cumprem obrigações como os filhos de santo com seu Orixá. Elas ficam reservadas em um quarto durante um longo período que antecede o carnaval e saem no dia do desfile, sendo recebidas ao som do baque.
Para cópias do DVD, entre em contato: bufalodubsoldier@hotmail.com


Você precisa ser um membro de Vozes de Mestres para adicionar comentários!
Entrar em Vozes de Mestres