Vozes de Mestres

Pessoal, esta é a primeira crônica de meu livro "Crenças e Desavenças", lançado, recentemente, pela Editora Baraúna. Quem estiver interessado em adquirir um exemplar, escreve para meu e-mail: jbgregor@uol.com.br que terei o prazer de enviá-lo, mediante o depósito em minha conta.
Grande abraço
joão

A MORTE DE GILDA
http://www.transvente.com/objet/686.jpg"/> A Gilda morreu por volta das 3 horas da manhã de um domingo. Havia dançado a noite inteira no forró da velha guarda e, à pé, subiu o morro do São Lázaro até chegar a sua casa. Não teve tempo nem de remover a pesada maquilagem ou de tirar o vestido desoirée.


 A Zilda, por sua vez, morreu por volta das 7:30 da manhã daquele mesmo domingo. Havia rezado bastante na missa das seis e, à pé, subiu o morro do Perpétuo Socorro até chegar a sua casa. Não teve tempo nem de lavar a louça do café ou de tirar o discreto vestido de "ver Deus".


Gilda casou-se muito jovem, levada pelo "furor uterino" que sempre a acompanhou, desde a menarca (lembram-se dessa palavra?). Após o nascimento de seu quarto filho, o marido faleceu, eletrocutado em cima de um poste, pois que trabalhava na "Cia. de Força e Luz".   Nunca mais arrumou outro marido mas teve vários amantes até a sua morte, aos 82 anos. O último deles,oDodô Goiaba (vendia goibas na rua, com um carrinho de pedreiro) era um pouco mais novo e  alcoólatra, batia nela e ainda torrava toda a pensão que a mulher recebia do finado marido. Os filhos viviam brigando com a mãe e enxotavam o velho safado da casa deles. Tanto fizeram que Gilda largou tudo e foi morar com o amante numa casinha de dois cômodos.


"Faço de tudo mas não vivo sem homem" dizia ela.

A Zilda, por sua vez, demorou muito para se casar; seu desejo era ser freira, porém, lá pelos 25, cedeu à insistência de seu Jacinto, viúvo com três filhas e dono de um pequeno açougue. Tiveram mais quatro filhas e ela deu um duro danado na vida para criar as 7 meninas, cuidar da casa e ainda ajudar o marido no açougue. Pior ficou quando "seu" Jacinto morreu com uma chifrada de boi que lhe furou o pâncreas.

 Ela resolveu tocar o açougue sozinha e assim, levantando todo dia às três da matina, destrinchando bois, enchendo linguiças e fazendo torresmos ela conseguiu criar as filhas até o ponto em que elas conseguiram ajudá-la também.

Bom, mas as duas senhoras morreram no mesmo dia e foram vizinhas de velório.

Na sala onde estava o esquife de Gilda, tudo era gritaria e choro exagerado. Só se ouvia imprecações contra Deus e discussões entre os 4 filhos e netos, os quais quase derrubaram o caixão em demonstrações exageradas de desespero.

 Na sala onde estava o esquife de Zilda, tudo era silêncio e respeito. Apenas se ouvia de vez em quanfo um murmurejar de orações, um suspiro ou choro calmo de alguma das 7 filhas e netos, os quais não desgrudaram do caixão.


De repente, irrompe na sala de Zilda o velho Dodô Goiaba, tão bêbado que nem percebeu que entrara no velório errado. Abraçou o caixão de Zilda desandou a gritar: "Gilda, meu amor! O quê aconteceu com você, minha velha?! Ainda ontem nós dançamos prá burro e agora tá aí, branca como um bicho de pau-podre!" As filhas da santa defunta ficaram pasmas, quase que sem ação.


A mais velha recuperou-se mais rapidamente e disse, de uma forma educada, ao bebum: "Meu senhor, essa defunta é a Zilda,minha mãe, o velório da Dona Gilda é na sala ao lado."


O velho, num olhar estrábico-etílico contestou, babando: "Como não é a Gilda? Se fui amigado dela por cinco anos não vou reconhecer?! É ela sim; só falta o batom de puta. Passa batom nela prá ver se melhora essa cara de coruja." A platéia ficou silente (gosto desta palavra) até que um dos parentes conseguiu colocar o Dodô prá fora.


Entrou na outra sala e recomeçou: "Ahá, te achei, sem vergonha! Queria ser enterrada sem me ver, né?" E deu corda à falsa cantilena de desespero até que um dos filhos da Gilda deu um sopapo no homem, vociferando: " Que você veio fazer aqui, seu safado? Já não chega o tanto que explorou minha mãe?!"


O velho pensou um pouco e arrematou: "Olha aqui... eu não gostava dela mesmo e vocês vão todos tomar no c.  E... ó, vejam se enterram logo essa velha nojenta que ela morreu sem tomar banho!." Deu as costas e saiu cambetiando, não sem antes levar um pontapé na bunda.

Essa eu assistí e posso confirmar! E a receita de hoje, foi-me dada pela Gilda, num churrasco que fizemos em Passos/MG. É uma farofa super prática e saborosa:

 FAROFA FRIA DA GILDA: Misture 2 copos de farinha de mandioca crua; 2 copos de farinha de milho; 1/2 copo de óleo ou azeite; 1/2 copo de limão tahiti; sal e pimenta do reino a gosto. Esfregue com as mãos, até as farinhas ficarem uniformemente misturadas e acrescente: 2 dentes de alho amassados e picados; 1 cebola bem picadinha; azeitonas, tomates e ovos cozidos picados; cheiro verde picado. Não mexer muito.


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